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Auditorio de Galicia | Compostela

Não sei, minha filha…

José Ricardo Nunes

Não sei, minha filha...

Não sei, minha filha, que mundo será o teu.
Mundo, como sabes, é apenas uma palavra
e nessa precária condição pode ter o significado
que lhe quiseres dar. Porém, se lhe quiseres dar
um significado verdadeiro, mundo é muito mais
que mundo, pode mesmo ser a realidade que devia ser
em vez de ser, como já sabes, apenas uma palavra
que até um poeta de primeira grandeza jamais sabe
o que será depois de ser escrita num caderno e por alguém pronunciada. Para mim, é uma palavra de significado bastante reduzido. Gostaria que o seu significado
não coubesse apenas numa palavra e fosse um composto
de coisas de verdade, terras e prédios e gente
de verdade a caminhar pelas ruas. Que a injustiça
que sinto e não quero ver propagada é o significado
ausente dessa palavra grande, onde cabem os países
todos e que associamos a tudo o que nos rodeia,
associa desde logo a ti, que és o mundo. O mundo,
um mundo, mundo apenas, prescindo de aludir às variáveis que a língua compreende e nos desorientam ainda mais. Basta que não a ligue a nada de palpável para perder significado. Posso escrevê-la, proferi-la e nada ter
depois a que relacioná-la, apenas ao eco
quando a traz de volta ou à leitura, por exemplo,
de um poema tão sentido quanto aquele
que Jorge de Sena dirigiu aos filhos. O teu mundo
não sei como será, Beatriz. Mas seja o que for,
com terras e prédios e gente a caminhar pelas ruas,
só espero que seja um mundo de verdade mesmo. Só peço que a palavra mundo não se torne num lugar vazio
no dicionário, sem nada ter por referência,
como sucede com o meu, não sei porquê.
Igual, de resto, ao que sucede com outras palavras,
desde logo com a palavra amor, que também não sei se serve ao que sinto, como já te disse, e não contém todo o amor
que sinto por ti, tão basto quanto um mundo de verdade.
Só peço que o teu não se desfaça assim. Que o mundo
dá um imenso trabalho e refazer se for coisa de verdade
e não apenas uma palavra bem escolhida, dessas que demoram
a escolher mas alguém decide pôr dentro de um poema, apesar de ser uma palavra grande demais e ter pouco significado para mim. “O mesmo mundo que criemos
nos cumpre tê-lo cuidado, como coisa que não é
nossa, que nos é cedida para a guardarmos respeitosamen- te.”

O teu não sei o que será. Só peço que tenha ainda melhor significado do que aquele que hoje imaginas de verdade merecer. Mundo, como sabes, é apenas uma palavra
e nessa precária condição pode ter o significado
que lhe quiseres dar.

Andar a Par.
Tinta-da-China, 2015.

BIO

Nasceu em Lisboa, em 1964. Vive em Caldas da Rainha. É licenciado em Direito e mestre em Cultura e Literatura Portuguesas.

Rua 31 de Janeiro – Algumas Vozes (& etc, 1998) foi o seu livro de estreia na poesia, ao qual se seguiram Na Linha Divisória (Campo das Letras, 2000), Novas Razões (Gótica, 2002) e, todos publicados pela Deriva, Apócrifo (2007), Versos Olímpicos (2008) e Compositores do Período Barroco (2013). Em prosa, publicou Alfabeto Adiado (Deriva, 2010), Uma Viagem à Costa Rica (edição do autor, 2010) e Confissões (Companhia das Ilhas, 2013).

No domínio do ensaio e da crítica literária, tem colaborado nas revistas Relâmpago e Colóquio/Letras, e, em volume, publicou Um Corpo Escrevente – a Poesia de Luiza Neto Jorge (& etc, 2000) e Nove Poetas para o Século XXI (Angelus Novus, 2002).
Andar a Par é o seu primeiro livro na Tinta-da-china.

Fonte

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