
Filipa Leal
ARREIGADA
Para o meu pai, aos 72 anos.
São bravos os que nascem no campo
e têm flores e cebolas na ponta das mãos.
São bravos os que não têm medo dos mosquitos
e dormem de janela aberta no Verão.
São bravos os que sabem de cor as constelações
e o preço da regueifa. São bravos os que plantam
os próprios pés no trigo e os que cortam a relva
ao sol. São bravos os que pintam a casa,
os que regam as hidranjas. São bravos os que podam,
os que cobrem o tanque com fio de pesca
para que não matem os peixes.
São bravos os que arranjam o chuveiro e o portão
para receberem os filhos e os netos.
São bravos os que servem o vinho porque pisaram
as uvas e os que ao fim do dia fecham a porta
das galinhas para as protegerem das raposas.
Não são bravas as raposas.
O meu pai é bravo.
O caseiro é bravo.
As raposas, simplesmente, têm fome.
Adrenalina.
Assírio & Alvim, 2024, pág.24
